terça-feira, 24 de março de 2009
fogo e Pessoa
quero ser fogo
quero corromper em chamas
deixar de ser eu.
pela manha senti
que a força tinha abandonado o meu corpo
sinto-me tão frio
o gelo não permite movimentos.
então se a minha alma deixar arder
serei livre
para estudar mais um pouco de Pessoa.
Grandes são os desertos, e tudo é deserto. ( Álvaro de Campos )
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.
Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.
Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incómodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,
Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.
Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.
Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.
Mas tenho que arrumar a mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.
Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.
Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.
Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei-de vê-la levar de aqui,
Hei-de existir independentemente dela.
Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!
Mais vale arrumar a mala.
Fim.
In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
um dia de chuva na companhia de Pessoa (Relatorio da visita de estudo)
visitamos nós Lisboa.
deveria-mos encontrar Pessoa,
só que poucas na rua se viam.
A chuva caía,
e pessoas caíam na armadilha,
de na rua se aventurar.
procuramos Pessoa.
procurá-mos em casa,
procurá-mos no seu baptizado,
procurá-mos no café,
até mesmo no "brazil"
tentá-mos a sorte na tabacaria.
e por fim, já ao almoço noutro café.
A chuva persistente
que cada vez menos incomodava
fez-me então pensar:
"Mas eu já encontrei Pessoa,
Pois ele é LIsboa!"
assassinos
mata-se um?
ou
matam-se vários?
matam-se 2!
mata-se este
mata-se aquele
mata-se Gomes Freire de Andrade
mata-se Humberto Delgado
matam-se inocentes
matam-se boas pessoas
matam-se pessoas
matam-se seres
mata-se incorrectamente,
quem não se deve matar.
poema tipo Alberto Caeiro. (por Andreia Guerra)
me passa e me fixa.
Não sou nada para além da certeza de hoje
e nem quero saber do amanha.
incertezas são tristezas
e já as tenho de sobra.
Se a vida fosse só sonhar
ficava para sempre aqui
a pairar entre o sol e a lua
pela estrada e pela rua.
Se hoje é um dia como o de amanhã
porquê tanta especulação
sobre o que se fazer ou não?
quando o amanha for hoje
terá sido
tudo em vao
poema tipo Ricardo Reis
enganando a morte com um sorriso
navegando em rios de chamas
onde a sabedoria de nada vale
breve momento em que um olhar
olhar esse, digno de quem nunca temeu
fita por momentos um mero mortal
traçando aì o seu destinho.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
fogo?
vejo um fogo em mim,
que arrefece o meu ser...
estou acordado,
sinto o corpo dormente
algo me tenta puxar
algo negro, maligno.
E o fogo em mim...
que é feito dele?
...
Entao?
Hoje nao há fogo?
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Dia D
Na areia as crateras dos impactos são imensas, mas tornam-se uma boa protecção para quem quer viver.
Refugiados de toda a amalgama mortífera que não cessa, nem nos dá descanso, encosto-me a parede da cratera de costas voltadas para o inimigo, aperto arma contra mim...
Respiro fundo.
Levanto a cabeça e espreito. O meu olhar percorre a praia na direcção do inimigo. Lá ao longe duas enormes torres repletas de soldados alemães que disparam loucamente sem qualquer piedade. As duas torres assentes num declive que desce sobre a praia e protegido por trincheiras e redes de arame farpado.
Volto-me para dentro e olho desta vez para o mar. Lá longe as fragatas (nossas), impossibilitadas de se aproximar devido a canhões de longo alcance espalhados pela costa.
A esperança esvai-se, juntamente com muitas vidas.
O objectivo é tomar a praia, para que assim mais tropas possam desembarcar e continuar a tomar o território inimigo.
Desespero neste campo, neste quadro pintado em tons de horror debaixo do fogo inimigo e dos gritos agoniantes soltos enquanto se perdem vidas.
O que posso fazer? A minha arma não tem alcance suficiente para tirar a vida daqueles cães e aqui parado, torno me num alvo fácil para algum inimigo bem armado com uma mira telescópica.
Estes pensamentos abandonam-me quando dois soldados saltam, entrando na cratera, esquivando-se mesmo a tempo de uma razia de balas. Caem os dois aos meus pés, e tentando ajuda los apercebo me que nas roupas encharcadas de um deles nem tudo é agua do mar...
Ao saltar para dentro da cratera de impacto um dos homens foi apanhado por uma bala no abdómen. Tenho de o ajudar, tenho de lhe salvar a vida.
Aproveito um interromper de fogo na minha zona, levantando me de um salto, procuro por mais crateras com soldados refugiados. A quinze metros vejo alguns soldados que se protejem como eu dentro de uma cratera. O meu pensamento reza para que esteja lá um socorrista. Num tom apressado começo me a dirigir para eles, ao mesmo tempo que a intensidade das balas aumenta, na minha direcção.
O individuo mais lingrinhas e amarelo puxa do cigarrito, levando-o a boca e de seguida tacteia que nem um louco pela chama da sua salvação.
Enquanto isto, o outro, anafado e branquinho que nem um "épa", implora secamente ao dito garçon por apenas 3 pasteis de nata, uma bola de berlim, um queque, uma tosta e um pãozinho de leite com manteiga, acrescentado ainda e como não podia faltar para não ficar embuchado um "compal light" (por causa da dieta é claro).
Muito delicadamente, o garçon pergunta ao outro individuo se deseja alguma coisa, e muito demoradamente ele tira o cigarrinho da boca, cospe o fumo para cima do pobre empregado e pede o belo do cafezinho, voltando a por o cigarro na boca e um ar distante e pensativo.
Quinze minutos passam e o garçon volta com uma pilha de pratos, bolos e um "compal light" numa mão, trazendo na outra uma chávena com um despreocupado e escaldante café.
O "fulano canceroso" (já no 4 cigarro) percorre com um rápido olhar a mesa, toda ocupada pelos pedidos do outro fulano, tira o cigarro da boca e com um esquelético braço tenta achar o seu café que rapidamente leva a boca e saboreia, perdendo por momentos o leve aroma a tabaco, trocado pelo da cafeína que rapidamente toma o controlo do corpo e modifica os pequenos olhos ligeiramente (abrem-se por 5 segundos e voltam ao normal).
O gordinho anafado que faz uma diferente dieta todos os dias, arregala os olhos ao ver o nobre manjar e emborca de uma só vez a pobre bola de Berlim que num ultimo adeus se despede do mundo e ainda solta um grito teatral digna de uma morte trágica. Um a um os bolos vão desaparecendo, por entre os olhinhos desgostosos do colega esfomeado que espera uma pequena oferenda.
A mesa está vazia, ao contrário de um deles, o garçon apressa-se para eles e espera... (como quem não quer a coisa) pelo pedido de pagamento, depois do forçoso trabalho.
Na mesa esta tudo calmo, o cigarro continua aceso, enquanto se ouve uma leve sinfonia composta por sons estomacais e alguns gazes a mistura.
Os minutos vão passando e já stressado o garçon dirige se aos dois cavalheiros que não se decidem a pedir a conta.
Num tom algo emproado os dois tomam conhecimento da quantia devida ao estabelecimento e olham furtivamente para o garçon, que ferve de vergonha por ter perdido a cabeça com tão pouco.
Ruidosamente as cadeiras são afastas, por consequente alguns trocos são espalhado pela mesa, outros pelo chão num acto de revolta, os dois afastam-se da esplanada muito empertigados pelo descaramento do garçon, que fica para trás, com o rabo espetado de baixo da mesa à procura da quantia total num chão repleto de beatas.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
vou ter de esperar
neste local incerto,
nesta epoca desconhecida.
haverá retorno,
para quem nunca antes
tenha esta terra percorrido?
porque me sinto atormentado,
com questões tão loucas
que se debatem em mim?
nao deveria...
deixar o meu espirito caminhar livremente,
enquanto a alma me orienta?
tantas escolhas,
tão pouco tempo.
o que faço?
o que digo?
o que acontece?
tanto em que pensar...
mas porque pensar,
se quem escolhe sou eu??
entao...
deixo me andar,
transformando o meu novo "eu"
deixo de pensar,
largo tudo o que já foi meu
recostando-me em branco
apoiando me no nada.
dou passos em falso,
caminho sem sorte
e dou por mim a pensar:
mas porquê mudar?
